sexta-feira, 13 de julho de 2007

JOCA FARIA ENTREVISTA ELIETE SANTOS







13.07.2007 00h.01
Eliete Santos


É uma artista brasileira da dança que confia na potencialidade desta nação e faz dessa força matéria prima da sua arte.

Joca Faria (*)



Onde nasceu? cresceu?

- Nasci em São José dos Campos. Por ser filha de militar da Aeronáutica cresci morando em algumas bases aéreas.


O que gosta de ler? assistir? ouvir?

– Como graduada em Filosofia, sou exigente quando se tratando de leitura. Gosto e tenho livros de arte, biografias escrita por pessoas do ramo e livros sobre filosofia. Assisto cinema de massa (alguma coisa nacional) e cinema europeu com atenção especial aos curtas metragem. Ouço boa musica, de qualquer nacionalidade.


Porque a arte?

- Não escolhi. Nasci com ela. Minha mãe recorda certa vez que, aos três anos de idade me viu dançando. Ainda sem saber falar corretamente pedia para minha mãe, "bale mãe!"bale mãe!".


O que é a dança para você?

- O caminho que apesar de não ter escolhido, foi ele quem me fortaleceu, educou-me quanto ao que é correto e honesto. Devo respeito esta arte. É através da dança que "falo" com as mais diversas pessoas, e ter isto em mãos não é fácil. O artista deve ter consciência de que tem uma ferramenta nas mãos e tem o dever de lidar com ela de maneira ética. Dançar por orgulho, dançar como fuga, dança exploração do outro, para mim, é um crime. Dançar não é meu tudo, mas parte do que sou.


Como se sente ao produzir cinema?

- Foi uma experiência formidável. Ter participado de produções de cinema me enriqueceu quanto a ter vivenciado o que é de fato uma produção coletiva. Nenhuma outra arte depende tanto da união e dedicação das pessoas quanto o cinema. O cinema é uma prova de fogo. Poucos passam bem nessa prova. Lá desemboca tudo quanto é tipo de gente. De maquinista analfabeto até Fernanda Montenegro e, todos juntos, num mesmo local, diante o mesmo objetivo. O cinema tira de dentro da gente algo diferente. È mágico. Depois do cinema aprendi a trabalhar mesmo em equipe, lidando com as diferenças de maneira correta, sempre respeitando a opiniões, ouvindo e retomando o que eu pensava ser correto para o momento. Agindo assim, no final tudo dava certo. Fiz um bom currículo no meio, mas atualmente dedico boa parte do meu dia a dança. Entretanto, não dispenso o convite para participar de um curta.


O que é ação cultural?

- Não é fácil de explicar, por isso não vou tentar falar do assunto nesse espaço. Mas posso garantir que sem Ação Cultural a comunidade entra num processo de falta sentido. Vou mais longe, Frei Betto numa palestra em São José dos Campos alguns anos atrás, comentou que "sociedade sem arte, tende ao desespero."


O que é produção cultural?

- Algo muito abrangente. Desde os primórdios da humanidade produzimos cultura. Mesmo sem saber, as pessoas produzem e reproduzem cultura. Tomar cafezinho com raspa de limão é produto cultural do sul de Minas Gerais. O profissional da arte e da cultura deve ter bem claro, sua função e do comprometimento em dialogar com a cultura e produzir algo consistente. Ter na sociedade pessoas que produzem cultura de modo profissional é fundamental para o alimento intelectual de uma sociedade. Afinal, não é disso que crianças e todos os adultos necessitam para "ira pra frente " e dar um salto de qualidade como pessoas que pensam?


Qual a linha geral de suas obras?

- Tive diversas fases. A fase de dançar obras européias de ballet, a do encontro com a cultura local dançando Moçambique e Folias de Reis, a fase da desconstrução na dança contemporânea. Hoje estou mais afinada com a produção de coreografias inspiradas em Pina Bauch.


Coletivo ou individual?

- Por força das circunstancias individual. Mas dançar coletivo é muito melhor.


Como vê a política brasileira?

- Em fase de crise ideológica. Alias não somente no Brasil. As correntes a
pouco tempo atrás, tão bem definidas, de lados opostos e rivais, estão revendo seus conceitos. Tem muita gente que aderiu ao "junta tudo " em função de projetos coletivos. O que está por de trás disso tudo, não posso comentar por falta de informação, mesmo. Em comparação a política de alguns países em desenvolvimento, o Brasil sai na frente. Bem ou mal a gente quando tem vontade e quer mesmo falar, reclamar, mudar algo vai até um veículo de comunicação e senta boca.


Qual a maior emoção da vida?

- Tenho várias em mente. É unânime dizer sobre a vinda do primeiro filho, mas como não os tive. Acho injusto eleger uma emoção dentre muitas. São os filhos, formaturas, casamento, viagens, o abraço num artista famoso, ganhar na loteria... posso agora me referir a uma certa vez, quando em São Paulo após uma apresentação recebi o elogio rasgado de Hulda Bittencourt, diretora da Cia Cisne Negro de dança. Meu coração batia querendo pular do peito. Fiquei quente. Sinto a sensação até hoje quando me recordo dela.


Considerações finais

- A dança é relativamente jovem no Brasil. Mas isto não serve de desculpas para a produção mal executadas de coreografias e criações que rebaixam a imagem das pessoas. A dança não pode ser confundida com algo livre, solto que serve de descarrego das energias. Aliás pra descarrego, qualquer pai-de-santo serve! A dança vem da tradição real criada pelo rei Luiz XIV da França, e outras correntes de dança, surgiram do respeito ao movimento corporal e da beleza que reflete o corpo em movimento com a musica. Dança para um publico exige trabalho físico, consciência do que está sendo feito, leitura e respeito com o publico. Pode parecer básico o que menciono, mas vejo que hoje muitas pessoas no meio não tem mesmo esta noção. O publico não merece assistir trabalhos coreográficos pobres quanto ao sentido.

Fale com a Eliete Santos: elietesantos13@hotmail.com

(*) João Carlos Faria - jocafaria@yahoo.com.br
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