terça-feira, 3 de julho de 2007

JOCA FARIA ENTREVISTA WALLACE PUOSSO











29.06.2007 00h.01
Wallace Puosso


Ator e diretor de teatro, poeta e compositor.É de libra com ascendente em capricórnio. 3º decanato. Lua em Libra.

Joca Faria (*)



Quem é você? Onde nasceu?

-Quem sou eu... boa pergunta! Vim ao mundo com nome estrangeiro, paulistano da Freguesia do Ó. Nasci no ano que não terminou, segundo Zuenir Ventura.


Porque a opção profissional pelas artes, num país em que ter um emprego normal já é difícil?

-Ser artista não é uma opção profissional. É uma escolha de vida. É ter a capacidade de acreditar. Sempre. E lutar por sonhos, não se conformar nunca. Ser artista é entender que o processo é sempre mais importante que o resultado. Se o processo é legítimo, verdadeiro e intenso, o resultado é edificante. E, ao contrário do que muitos imaginam, também traz retorno financeiro, isso se o trabalho for verdadeiro e honesto (respeitando princípios e ética). Por tudo isso, trabalhar com arte não é pra qualquer um. Por isso, a arte (a verdadeira, não a cosmética) é um funil, onde poucos sobrevivem.


Quais os prazeres em escrever, atuar e produzir vídeos?

-O sociólogo francês Edgar Morin tem uma frase que resume bem essa coisa dos tais prazeres: “Criar é matar a morte”. Essa frase me norteia há muitos anos. Sempre a trago como guia. Sendo assim, o prazer em escrever, atuar e produzir material audiovisual está diretamente relacionado aos mistérios de se fazer eterno, imortal, perpetuar na arte um sentido de existência. Penso que seja isso. Todas as artes se complementam, mesmo com suas diferenças.
A riqueza está aí. Há literatura na leitura da cena dramatúrgica e no roteiro cinematográfico. Há sonoridade nas palavras bem faladas. A fotografia de cinema também pode ser uma pintura em movimento. E a pintura complementa o que a palavra não diz. Ou o que está por trás desta. O teatro evoca rituais ancestrais, que por sua vez, desperta o primitivo em cada um de nós e por isso nos sentimos mais vivos, vivenciamos sensações intensas e passamos a enxergar as coisas de outro modo. A literatura ativa a imaginação que por sua vez, devolve estímulos ao corpo. A diferença entre as diversas manifestações artísticas está em sei meio de propagação, não em seu resultado final.


Como incentivar a iniciativa privada a bancar manifestações artísticas?
-Entendo cultura (em toda a sua extensão, incluso aí as manifestações artísticas) como dever de estado. Assim como ocorre em países como França, Inglaterra, Alemanha e Espanha, por exemplo. As razões do mercado são outras e conflitam com as razões de estado. Cultura é identidade, raiz de um povo. Não pode ser regida por regras de mercado. Mas a iniciativa privada tem sua responsabilidade social também. Isso é que tem de ficar claro.


Só o setor público é responsável pela cultura?

-As leis de incentivo, da maneira como estão, deixam a verba pública sob co-responsabilidade da iniciativa privada e a deliberação sobre o que deve ou não ser incentivado fica a cargo dos departamentos de marketing das grandes empresas, que decidem onde devem ou não aplicar um dinheiro que é público! Por isso, as leis de incentivo, são danosas à cultura. Porque produzem um mercado paralelo. O estado tem que tomar pra si o que é seu por direito. Ora, cultura é dever de estado desde a Grécia antiga. Onde foi que nos perdemos?


Qual é o trabalho do momento? Fale-nos sobre ele.

-Atualmente estou em cartaz com a peça “Toda Nudez Será Castigada”, de Nelson Rodrigues, com direção de Cláudio Mendel e realização da Cia. Teatro da Cidade. Desenvolvo pesquisa cênica sobre o tema “Estrangeiro” e que deve resultar num espetáculo para o ano que vem. Estou escrevendo um livro sobre o mesmo tema, que pretendo lançar também no ano que vem. Estréio duas comédias no final do segundo semestre (uma como diretor, outra como ator) pela Cia. Troupe do Autor, da qual faço parte há dez anos. Também desenvolvo pesquisa sobre performance e estou no espetáculo “Yulunga – Poema para um Deus Morto”, da Cia. Do Trailler. Sou Diretor Artístico do CAC Walmor Chagas desde 2003. Também sou conselheiro da OSC Celebreiros e diretor do Instituto Magneto Cultural.


Como vê o crescimento do terceiro setor no país?

-Vejo com otimismo. Sou formado em Gestão de projetos pelo Instituto IDIS – em parceria com a Fundação Interamericana e trabalho nessa área há 5 anos. Vejo que nesses últimos anos, com a reforma do Marco Legal do Terceiro Setor esse segmento deu um salto de qualidade (administrativa, fiscal). Ainda temos muito a fazer. Hoje, por exemplo, temos uma lenta transferência conceitual do que até então era conhecido como Filantropia e agora passa a ser denominado Investimento Social Privado.
O assistencialismo – praticado por mais de 80% das organizações sociais - precisa ainda, ser substituído por um projeto pensado a longo prazo que contemple gestão e sustentabilidade. O terceiro setor no Brasil é fortemente dependente de verbas públicas. O que já não acontece em países como EUA, Canadá e Inglaterra, onde a doação individual, familiar, supera a doação jurídica e estatal. Mas estamos no caminho. E sobre isso, sou otimista sempre.


Cinema, teatro e televisão, quem fez e faz sua cabeça nestas áreas e quem são os talentos que despontam?

-Em cinema, Matheus Nachtergaele, Lázaro Ramos e Rodrigo Santoro. E Johnny Depp, que é excepcional. No teatro ainda estão concentrados os maiores talentos que conheço, por ser essa área (mais que as outras duas) a que mais evidencia o trabalho do ator. Agora, os maiores atores que já vi em cena, atuando, ao vivo: Paulo Autran, Cacá Carvalho, Luís Melo, Matheus Nachtergaele, Juliana Galdino, Henrique Schafer, Leona Cavalli, Leopoldo Pacheco. Esses são os que me fazem a cabeça. E o mestre Cláudio Mendel e meu irmão de teatro Edson Gory. Acho que o mundo é realmente injusto. Tanta gente boa e talentosa e tão pouco espaço!


Já experimentou o Yotube? Quando veremos uma produção de vídeo sua?
-Quanto ao Yutube, por incrível que pareça, ainda não cheguei lá. Às vezes dou uma espiada, vejo algumas novidades, mas ainda não “comprei” essa idéia. Mas é uma questão de tempo. Quanto à produção de vídeo, não tenho planos ainda. Mas colaboro num roteiro que deve virar filme logo, logo.


Como andam as parcerias musicais?

-Meu último e mais constante parceiro foi o Edu Pane. De uns dois anos pra cá, produzimos pouco, muito pouco. Talvez seja a falta de tempo, sei lá. Mas temos mais de 30 músicas juntos!


O que sente ao escrever para um blog?

-Vejo o blog como uma atualização necessária ao ato de escrever. Assim como a fotografia não acabou com a pintura e o cinema não destruiu o teatro, a tecnologia facilita (ou pelo menos assim deveria!) o ato de escrever, torna-o mais descentralizado, a literatura torna-se global, imediata. Isso me comove e me assombra! Mantenho um blog há dois anos e meio junto com Ana Clara, minha mulher e parceira de criação http://celebreiros.zip.net/ e colaboro a um ano e meio num outro blog, coletivo http://www.escrevinhadores.blogspot.com

(*) João Carlos Faria - jocafaria@yahoo.com.br

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