sexta-feira, 24 de agosto de 2007

JOCA FARIA ENTREVISTA MOACYR PINTO










Moacyr Pinto

Onde nasceu? Cresceu?

Nasci em Pacaembu, interior de São Paulo, aos 8 anos fui para São Bernardo do Campo, de onde saí pela primeira vez aos 26.


Por que o desejo pela escrita?

Há muito tempo venho escrevendo, como professor e assessor sindical e partidário, mas também como cidadão; estou sempre enviando os meus palpitezinhos para os jornais. Costumo dizer que devo 80% do meu relativo
sucesso profissional à minha capacidade e disposição para escrever. Este livro mais autoral, falando em meu próprio nome, era um velho projeto, que a roda da vida me trouxe na hora certa.

Política,
para que serve?

Alimento a firme convicção de que a política surgiu entre os humanos para se opor à barbárie, apesar das barbaridades que muitas vezes os homens cometem em seu nome; ela é imprescindível. Gosto menos dos “civis” que fazem demagogia falando mal dos políticos do que dos próprios políticos.

Ficou um bom tempo longe de São José dos Campos.
Como vê a cidade, hoje?

Tenho achado ela mais desumana, mais sem graça, mais pobre de espírito e quero crer que é em função da falta de debate, da prevalência do pensamento único entre nós; nos anos 1980, por exemplo, ela era bem mais animada. Hoje, o que tem predominado em São José é um pensamento único que mistura os
interesses de velhas figuras conservadoras e reacionárias com a força do neoliberalismo, que aqui se impôs de maneira violenta, em função da nossa pujança econômica, e ainda não foi deslocado, apesar do seu rápido envelhecimento como alternativa de organização social e política em todo o mundo. São José tem uma ficção chamada de “classe média” - sucesso de público no You Tube - que é assalariada e não se considera classe
trabalhadora, é tecnicista, insensível e muito passível de manipulação. Ela se contenta com um governo local que vive de aparência, inclusive da aparência estética da cidade (planta flores e troca a grama todo dia de algumas praças e jardins por onde ela circula) mas não oferece assistência médica e nem educação de qualidade para os seus filhos. Quanto à situação dos que moram na periferia da cidade, essa tal “classe média” nem sabe onde fica.

Como vê a educação na cidade?
Pontos positivos e negativos. Propostas.

A avaliação das nossas crianças e adolescentes do Ensino Fundamental feita pelo Mec teve como resultado uma média em torno de 5,0, portanto abaixo dos 6,0 almejados como média nacional, para alcançarmos os mesmo padrões dos países mais educacionalmente adiantados no mundo. Penso que, com os recursos orçamentários que São José dispõe (o grande ponto positivo), nossa obrigação era de estar ajudando a puxar a média nacional para cima e não estar onde está, portanto deveríamos estar bem acima da média 6 e do jeito que as
coisas andam (com ações apenas administrativas) vai ser difícil isto acontecer. Acho um erro o autoritarismo e a centralização praticada na educação pública joseense e paulista e um absurdo essa história da escola pública comprar “pacotes de ensino” da rede privada, além desse tal de “empreendedorismo”, que vem alicerçando a filosofia adotada na formação das nossas crianças e adolescentes.
Minha proposta: que as autoridades públicas cumpram a lei e tenham coragem de implantar um Plano Municipal de Educação realmente democrático, para o qual uma boa parcela da sociedade deu farta contribuição anos atrás, quando o então prefeito Emanuel Fernandes, demonstrando total desconhecimento de causa, prometeu fazer aprovar em poucos meses, às vésperas de uma eleição.

Comente seu
livro.

Ele é produto de uma revisão histórica que eu fiz, a partir da minha experiência pessoal - fazendo questão de não apelar para pesquisas bibliográficas e trocando muitas idéias com os meus parentes amigos e velhos companheiros - onde falei de tudo, dos inevitáveis e esperados, ao menos pelas pessoas que me conhecem, palpites sobre educação, política e sindicalismo, até questões pouco ortodoxas como a morte e a mania de cantar, alto e sozinhos, sem mais nem porque, que muitos de nós temos. Como sou educador profissional e contador de causo, essa faceta em razão da minha origem caipira, o meu amigo e professor Luiz Carlos Lima disse que ficou parecendo um livro de auto-ajuda; e eu sempre acredito no Lima. Afinal, todo contador de causo quer passar um ensinamento no final da história, não é mesmo?

Governo Lula,
como avalia?

Acho que o Governo LULA está bem aquém dos nossos sonhos, dos sonhos da esquerda brasileira mais sensata, mas vem sendo o melhor governo - para quem precisa de governo e não para os querem o governo e o país para eles - da nossa história. Digo isto tanto pelo patamar no qual o país se encontrava no início do seu primeiro governo como pelo estágio da nossa organização política e social. Particularmente, acho que ele vem falhando mais do ponto de vista político do que administrativo, pelo fato de não travar as batalhas políticas e ideológicas possíveis de travar; eu falo sobre isto no livro. Acho que corremos sérios riscos de termos como seu sucessor alguém que venha a remar no sentido oposto ao que vem sendo feito, pelo fato de não se estar investindo na preparação dos “de baixo” da nação para o enfrentamento político e ideológico que aí está dado.


Já conseguimos ter uma noção do governo Serra?

Para mim está dando 100% a lógica; o Serra, mais do que o Alckmin, que era um caipira autoritário e sem tradição no Poder executivo e na grande política, é um privatista
neoliberal também autoritário e traquejado, que
“não perdoa, mata!”.

Se voltasse a ser criança, do que brincaria?

Acho que de novo de bola, ainda gosto muito, apesar da abstinência justificada pela idade e pela falta de adversários, e também de médico, porque no passado a minha mãe não me deixava chegar “perto das filhas dos
outros” e eu, vivendo, descobri que é muito bom!

Livros que esta lendo? O que gostaria de ler?

Estou lendo um livro (uma tese de mestrado em Ciências da religião) sobre a vida do Santos Dias, metalúrgico cristão morto na porta de uma fábrica em São Paulo, capital, no ano de 1979 e o “Retrato do artista quando jovem”, do
James Joyce – de quem já li “Os Dublinenses”- como vestibular para ler o Ulisses.

O que aprecia, da MPB?

Curto ouvir desde Maysa, João Gilberto, Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, até o Lenine, Zeca Baleiro e Adriana Calcagnoto; além do povo cá do Vale, como o Déo Lopes e o Trem da Viração, Eduardo Rennó e o Grupo Rio Acima,
Paranga, Margareth Machado e os de fora que seguem no mesmo e bom embalo, como o Tião Carvalho, Ceumar e Paulo Freire, entre outros. Ando louco por música e cinema (em DVD, porque nas telas a coisa anda muito ruim, não?) ultimamente.

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