sábado, 20 de outubro de 2007


ETERNO CIRCULAR (ou o teatro que morre e renasce infinitas vezes)



As coisas não acontecem por acaso.

Bauru, outubro de 2007. 2º Fórum de Criação Teatral no Interior do Estado. Estavam lá, representando grupos de São José dos Campos: Wangi Alves, Dani Peneluppi, Allex Cardozo, Thais Lopes, Carolina Toledo, Robson Jacqué, Fernando Rodrigues, Milena Roberta e eu. Dois dias de debates sobre dramaturgia, novas dramaturgias. E Dramaturgia Pós-Dramática. Para se entender o que anda acontecendo com o teatro brasileiro, é preciso voltar um pouco no tempo.

Belo Horizonte, dezembro de 2005. 2º encontro da REDEMOINHO - Rede Brasileira de Espaços de Criação, Compartilhamento e Pesquisa Teatral. Presentes ao encontro, Claudio Mendel, André Ravasco e eu, representando o CAC Walmor Chagas, representando nossa cidade numa arena de debates com os principais grupos de teatro do Brasil.

Lá, nas conversas com Hugo Possolo (Parlapatões), Pedro Pires (Cia. do Feijão), Tiche Viana (Barracão Teatro), Chico Pelúcio (Galpão), o pessoal do Teatro de Narradores e alguns outros, o discurso já apontava encaminhamentos distintos para o teatro brasileiro. Principalmente o teatro de grupo e os grupos com espaços de criação. Na arena da Redemoinho se discutiu a eficácia das leis de incentivo, o modelo administrativo falido no qual o teatro se apóia, balançando entre a pesquisa-que-não-dá-dinheiro e o comercial disfarçado, a ausência do estado no fomento às artes em geral e, é claro, a Lei de Fomento que mudou definitivamente a cara do teatro paulistano.

Nessa ocasião, pude constatar que as dúvidas que me acometiam aqui na cidade dormitório eram - de certo modo - comuns a outras regiões, outras companhias. Pude abrir minha visão para outros caminhos, outras saídas para o teatro, sem abdicar da pesquisa, da ética, dos princípios que defendo.

A Redemoinho é um divisor de águas na minha trajetória de 15 anos como artista.
Depois disso tive certeza: nunca soube fazer outro teatro que fosse fruto de trabalho de grupo, que não fosse em processo colaborativo (ainda que isso seja bem complexo) e que busque a ética acima de tudo. Um teatro que seja um grito contra a opressão, contra os que me silenciam com sorrisos elegantes. Um teatro bruto, urgente, imagético, pulsante. Sem ser panfletário. A era da militância acabou, companheiros!

Os artistas são (ou pelo menos deveriam ser) a pimenta do planeta!

Em setembro de 2006, como parte da programação do FESTIVALE, organizamos (Cia. Teatro da Cidade, Troupe do Autor, Cia. do Trailler e Barracão Teatro) o Encontro Regional Da Redemoinho. Quem esteve lá presenciou ótimas discussões e reflexões.

Em dezembro de 2006 iríamos os três (Claudio, André e eu) para o 3º encontro da Redemoinho, desta vez em Campinas, organizado pelo Barracão Teatro. Aí o discurso radicalizou e transformou a rede num movimento político. Já não era mais A Redemoinho, mas sim O Redemoinho. E a luta passou a ser por melhores políticas públicas para o Teatro Brasileiro, com ações diretas e intensivas junto ao Congresso e Senado Federais.

E chegamos a Fevereiro de 2007, com o 1º Fórum de Criação Teatral no Interior do Estado. Em Bauru. Como se um fosse continuação do outro, os movimentos se entrelaçam, os discursos se fundem e a Cooperativa Paulista abre seu foco para o interior do estado de São Paulo, dando continuidade às reflexões já desenhadas nos encontros anteriores do Redemoinho. Em dois dias, tivemos as falas do mestre Janô, do mestre em Narrativa Prof. Luiz Arthur Nunes, do Rogério Toscano, dramaturgo e profesor da ELT, entre outros.
Neste primeiro Fórum estavam: Claudio Mendel, Andréia Barros, Carlos Rosa, Milena Roberta, André Ravasco, Lucilene Dias, Diogo Cábuli, Robson Jacqué e eu.

Corte para outubro de 2007. Novamente Bauru. Porque contar todos esses fatos? Quero deixar registrado que uma transformação silenciosa traspassa o teatro brasileiro desde meados dos anos 90. É preciso estar atento às mudanças.
Aqui na cidade dormitório, onde os coronéis ainda ditam regras (inclusive no teatro!) ainda existem companhias de teatro que estão no séc. XX, atrás de fórmulas de sucesso para atrair público, atrás de dramaturgias não tão novas e defensoras de um pensamento arcaico.

As coisas são circulares.



Wallace Puosso
(12) 9175-2738
Instituto Magneto Cultural
CAC Walmor Chagas


Todos os dias, devíamos ouvir um pouco de música, ler uma boa poesia, ver um quadro bonito e, se possível, dizer algumas palavras sensatas. (Goethe)

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