sábado, 13 de outubro de 2007

JOCA ENTREVISTA VIVIANI LEITE
















Viviani Leite
Arte-educadora e produtora cultural. Virginiana, nascida e criada nas margens do Rio Paraíba, na rua da feira de quinta feira, em Santana. Atualmente morando na babilônia que é a cidade de São Paulo.

Quem é?
Difícil pergunta, essa. Mas vamos lá! Profissionalmente, sou arte-educadora, mas pra chegar até aqui, transitei em várias direções. Gosto de cozinhar, então com 18 anos, larguei o emprego numa pequena loja, pra fazer e vender pão de mel. Meus amigos todos lidavam com arte. Eram músicos, poetas, compositores, e minha casa desde a adolescência era o ponto de encontro dos amigos e eu cozinhava pra eles enquanto eles tocavam, recitavam, pintavam e criavam. Fiz cursos de teatro, dança, literatura e canto, criei uma personagem e saí por aí contando histórias pra crianças. No meio disso tudo, quando vi, estava organizando alguns pequenos eventos e como era apaixonada por cinema, fui procurando fazer cursos na área, me especializando na produção de vídeo. Um tempo depois fui convidada pelo Flau (fundador do Mamulengo), para trabalhar em um projeto como educadora com crianças em situação de risco social e percebi que poderia usar as
ferramentas da comunicação para educar.
Pessoalmente, escolhi ver o mundo pelos olhos da arte porque acredito que seja um grande elemento transformador. Durante a minha vida, já fui salva por Fernando Pessoa, Drummond, Mário Quintana e tantos outros. Já me jogaram verdades na cara, Glauber Rocha, Cazuza, Renato Russo, Machado de Assis, Dostoievski e Vitor Hugo. Aprendo a ser mulher com Florbela Espanca, Adélia Prado, Hilda Hilst e Alice Ruiz. Meus amigos e minha família são meu porto seguro, meu tesouro encantado e eu tento viver a vida com a maior lealdade comigo mesma e consequentemente com o mundo.

Como é trabalhar no Terceiro Setor?
Difícil. Mas só de saber que o que faço não visa o lucro financeiro de ninguém, que não existe nenhum executivo engravatado ou uma multi-nacional que tem como seu único objetivo o capital por trás de toda essa história, me sinto mais confortável. Não acho que o terceiro setor, vá resolver os problemas do mundo, e sei que muitas instituições hoje, infelizmente atuam com a lógica do mercado, vendo o seu público alvo como parte da engrenagem para conseguirem financiamentos. Mas existem instituições sérias, com pessoas comprometidas pessoal e profissionalmente com o coletivo e o bem comum. Tenho a sorte de conhecer algumas dessas pessoas, e aprender com elas a ver a possibilidade de mudança, de acreditar num mundo mais justo e com mais beleza.

O que é “Os Mamulengos”?
O Mamulengo nasceu espontaneamente, de um grupo de pessoas que acreditam que a vida pode ser mais colorida, com mais riso e sonhos. Quando vi o trabalho do Mamulengo, em 2000 no galpão do Putim, com mais de 800 crianças brincando de teatro, de dança, jogando bola no campinho de futebol, andando de perna de pau e com sorrisos de orelha a orelha, fiquei encantada. Me encantei com a força da Maria Zilda (mãe do Flau e fundadora do Mamulengo) ensinando as crianças a fazer bonecas de pano e com outras tantas pessoas que dedicam e dedicaram a sua vida por essa causa. Hoje o Instituto Mamulengo coordena diversos projetos de arte e educação em São José, Litoral, interior e capital do estado de São Paulo.

Como é a vida em Sampa?
Faz três meses que estou morando em São Paulo. Não fazia parte dos meus planos vir parar nessa cidade, quando percebi estava enviando um email aos amigos comunicando meu novo endereço.
São Paulo é o paradoxo, é tudo de tudo. Tudo nessa cidade é muito. É muito cinza, é muito cruel, é muito rica e é muito pobre, é muito bela e é muito feia. Aqui a gente vê de tudo ao mesmo tempo. Estou ainda captando e digerindo as informações e sensações desse universo, isso está me transformando e estou curtindo essa transformação. O universo aqui é muito amplo, tem muita gente, e tenho tido a sorte de até agora, só ter encontrado pessoas “do bem”, desde o porteiro do prédio até os amigos que tenho feito por essas bandas. Mas fico o tempo todo me alertando pra não deixar essa cidade me engolir, pra não esquecer meu ritmo, porque é muito fácil numa cidade tão grande como essa e tão cheia de mazelas da gente se perder.

Fundação Casa ? Como é trabalhar com reeducandos?
Não é nada fácil. São 30 anos de história, funcionando num esquema de opressão e transformar isso não é do dia pra noite, mas vejo que alguns paradigmas estão sendo mudados, que propostas ousadas e boas estão sendo aceitas. Vide o trabalho que estamos fazendo, que é um trabalho de política pública cultural dentro das unidades. O Mamulengo é responsável pelas atividades de arte e cultura oferecidas em unidades do interior e capital do estado, e eu acho que o forte desse projeto é a formação. Os educadores estão recebendo formação, capacitação e acompanhamento contínuos, acho que é a primeira vez, que a arte está recebendo o devido valor no trabalho com os adolescentes, como elemento fundamental de transformação dentro de unidades da Fundação CASA. A equipe que está na coordenação é muito séria e são artistas. Pessoas que vêem a arte não de forma utilitária ou como passa-tempo – dois estigmas muito fortes e
errôneos sob o meu ponto de vista – pois maior função da arte é ela por si própria, a emoção, a fruição, a catarse. O ser humano é tocado pela necessidade de criação, do conteúdo que explode se transforma em forma, e é baseado nesse conceito que estamos construindo esse trabalho. Cada atividade com os adolescentes é o ponto de partida pra uma faísca que pode mudar o horizonte do olhar, ampliar as possibilidades e as paisagens por meio da emoção e das sensações que só a arte proporciona fazendo com que se crie nesses adolescentes um diálogo com o mundo e a resposta dos adolescentes nesse diálogo é valiosa e bela.

Quais os preconceitos que enfrentam?
Acho que até agora não enfrentamos grandes preconceitos, como disse anteriormente estamos tendo até agora grande acolhida de nossas propostas por parte da Fundação e olha que estamos realizando propostas bastante ousadas. O que percebemos em algumas pessoas e acho que é o que todo artista percebe em qualquer canto do mundo: pessoas que vêem a arte como mero passatempo ou de forma utilitária achando que a função da arte é nos dar sempre uma moral da história.

Quais as soluções para estes adolescentes? Como evitar que cheguem a delinqüência?
Os adolescentes são estigmatizados simplesmente como marginais. Não quero aqui defendê-los de forma tendenciosa eximindo esses meninos de suas responsabilidades. Eles cometeram crimes e tem que ser responsabilizados por isso, mas também são pessoas em fase de formação e que vivem numa sociedade cruel, muitos deles não tiveram o básico em educação e formação dos valores fundamentais para que possamos conviver coletivamente, e isso, infelizmente não é uma questão somente das classes mais baixas de nossa sociedade - vide os casos de violência que vemos nas manchetes de jornais cometidos por adolescentes de classe média e alta.
Esses adolescentes vêem o crime como trabalho, com plano de carreira e tudo mais. É a sociedade que cria esse modelo, vivemos num mundo onde somos valorizados pelo que temos, os meios de comunicação todo o tempo nos diz que só seremos felizes se consumirmos mais e mais, o conforto é facilmente confundido com o luxo.
Vou cair aqui num lugar comum, e reafirmar mais uma vez o que todos estamos cansados de ouvir, mas só a educação pode transformar! Só a afirmação de valores básicos como a ética, o bem comum, o afeto, a cidadania, a solidariedade, a dignidade, a responsabilidade, o belo, e outros valores fundamentais podem modificar o mundo, e isso só pode acontecer através da formação do indivíduo, do conhecimento, do entendimento e da apropriação desses princípios.

Como governos podem agir previamente?
Não acredito que o governo tenha que agir sozinho. Isso é responsabilidade de toda a sociedade, mas culturalmente aprendemos a transferir o poder, achamos que votar no determinado candidato é suficiente para transformar as coisas. Temos que ter mais consciência de nosso papel, e fiscalizar os órgãos responsáveis para que cumpram o deles. Temos que cobrar para que políticas públicas sejam feitas, que as escolas tenham qualidade, que a saúde tenha qualidade. A sociedade é feita de pessoas, e as pessoas somos nós. Nas tribos indígenas, quando uma criança nasce, ela é criada por toda a tribo, todas as pessoas daquela tribo são responsáveis por ela, por sua educação, por sua alimentação, por seu bem estar. Esse pra mim, é o exemplo de uma sociedade justa.
Infelizmente em nossa sociedade, a preocupação é sempre baseada no individualismo, na vantagem que o “indivíduo” terá se agir de determinada forma, esse pensamento neoliberal de subir a qualquer custo, está fazendo com que o mundo caminhe pro abismo.
E mais uma vez aqui, afirmo que somente a educação pode mudar os rumos da sociedade e a educação não faz somente na escola, faz em nosso dia a dia, nas ações de nosso cotidiano, na participação coletiva.


O que faz enquanto arte?
Trabalho com comunicação. Não me considero artista, mas sim uma pessoa que procura olhar o mundo com sensibilidade, com indignação, com paixão e às vezes por conta disso acabo escrevendo alguns textos, poemas e produzindo imagens na tentativa de travar um diálogo com o mundo, de expressar meus desejos, minhas dores, meus medos e meus devaneios. Mas sem falsa modéstia, acho que não sou muito boa nisso não. Percebi que o que faço melhor no campo das artes, é instigar o outro a se deixar levar pela emoção que só a arte pode proporcionar. Por isso, escolhi ser educadora, e pra isso utilizo a linguagem do vídeo, da fotografia, da poesia, da palavra.

Quais as diferenças do movimento cultural e social na capital e no interior?
Ainda não saquei muito bem como as coisas funcionam aqui em São Paulo, mas acho que nessa grande metrópole tudo acontece com menos preconceitos, menos rótulos, os movimentos culturais por aqui me parecem transitar mais entre diferentes modalidades. O pessoal do HIP HOP, transita com o pessoal do teatro, o pessoal do teatro faz musica, os músicos misturam elementos eletrônicos com os tambores, o poema vira rima de Rap e o artista plástico sai por aqui grafitando paredes. No interior, essa movimentação existe mais ainda é muito tímida.

Considerações finais.


Foi bom poder concatenar as idéias e expressá-las aqui, isso fez com que eu me entendesse um pouquinho melhor.
E o dialogo se abre, quem quiser concordar, discordar, discorrer, criticar, esteja a vontade.
Meu emeio: vivianileite@hotmail.com

Vou ousar um pouquinho mais e já que entrei nessa dança, transcrevo abaixo, com um tanto de timidez, um pequeno poema que escrevi algum tempo atrás em homenagem a outros poemas e que expressa um pouquinho minha relação com as palavras e com a arte.

O poema é a contra mão da razão.
É licença poética,
É rima etílica,
Palavra inventada.
O poema é margem do rio que canta,
É a mão da criança,
É a safadeza na dança,
É o amor que balança.
O poema é meu norte, meu lema.
Minha sorte, meu dilema.
O bom poema, me leva sempre a morte,
Pra renascer depois muito mais forte.

Viviani Leite

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