segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

JOCA FARIA ENTREVISTA A ESCRITORA ROSA KAPILA















Quem é Rosa e onde nasceu?

Eu nasci em Picos, no Piauí. Apesar de fazer um exame de consciência todo dia e de meditar muito eu não saberia me definir. Alguns amigos me definem como uma pessoa elétrica, bem humorada, irônica, caridosa e que quer resolver o problema antes que ele apareça. Sempre quis tudo pra ontem, faz parte de minha personalidade.

Por que o interesse pela literatura?

Nesses dias eu estava querendo me lembrar como era minha vida antes da literatura. Não existe. Desde que me alfabetizei, vivo com um caderno na mão. Minha vida não pode ser dividida entre antes e depois da literatura. Minha vida é a Literatura. Eu só sei que "antigamente" eram escritos mais poemas do que textos corridos. Hoje este costume voltou devido a internet, para facilitar o leitor e pelo tempo curto das pessoas. O poema concentra uma idéia ou várias idéias e o bom escritor pode testar bem a literariedade (só ela faz com quê um texto seja literatura ). Eu acho que cada palavra precisa ter o tamanho exato da emoção. Há trinta anos eu não publicava poesia... hoje em dia publico poemas virtuais. O escritor sempre achou uma saída.

Como vê este movimento hoje?

Hoje em dia fica difícil definirmos Literatura. Eu só sei que por causa do estômago, surgiu a literatura. Na Idade da Pedra os homens iam para as caçadas e, caçar significava trazer alimento para todo o grupo. Muitas vezes alguns dos caçadores morria ou ficava aleijado. Com o passar do tempo, um dos caçadores distinguiu-se por uma qualidade: sabia contar melhor do que os outros como tinha sido a caçada. Este caçador ficou sendo um porta-voz. Eu sempre procuro ler o contemporâneo, o ano em que estou vivendo. Mas atualmente acontece um fato interessante: os economistas são os novos escribas da humanidade, eles sabem o que vai acontecer conosco. Nós, escritores, trabalhamos de graça, como os relógios. Todo escritor sabe o quanto dói essa saudade.... o não recebimento de direitos autorais.
Como aproveita a internet para se divulgar?
Acho que a internet é uma metáfora agrícola: "a salvação da lavoura" . Também acho que andamos longe de aproveitarmos o potencial da net. Esse instrumento poderia ser o maior produtor de conhecimento do mundo... infelizmente há de tudo nela, mas pelo menos o autor já não fica mais sem eira nem beira, inédito para sempre. Todo escritor deve programar bem o conteúdo de seus textos para a net. Como noventa e nove por cento não presta.... se o seu texto é bom, se o seu poema ou conto for bem escrito, se você souber dominar bem técnicas, seu texto será reconhecido no mundo inteiro. Pieguice não vence.... Não é porque o veículo é facilitador de comunicação que o profissional vai ser exímio e virtuose. Besteira qualquer um escreve. Todo escritor tem que ser aquele caçador que melhor conta a história da caçada. É preciso lembrar que sucesso é uma coisa, realização é outra.


Educação e cultura: como estarem juntas para o
desenvolvimento cultural do país?

Hoje em dia a palavra "cultura" passou por uma nova formulação. Há a cultura do café, a cultura do artesanato, a cultura do índio e por aí vai.... Se o indivíduo faz bem uma determinada coisa, ele é bom naquela cultura. A escolaridade ajudaria muito. Sem estudar, sem pesquisar, fica difícil alcançarmos determinados fins. Fica impossível inventarmos nossos caminhos sem termos um material pedagógico adequado. É só lermos Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.



O poder público na cultura não cria uma arte atrelada
a governos? Como no caso do pianista que inaugurou uma
TV estatal na venezuela?

Desconheço o caso do pianista na Venezuela. O poder público tem obrigação sim, pois nós pagamos até o ar que respiramos para o governo. Fazemos por muita pessoas o que o Estado deveria fazer. O mundo dos livros por exemplo, que é o meu mundo... se o autor não fizer parte do cânone ele não é reconhecido pela sociedade. Todas as teorias literárias são criadas em cima da arte do romance, do conto, do poema. Os tipos de personagens, o foco narrativo, o texto lírico.... tudo isso foi criado para que os poemas, os romances e os contos fossem estudados adequadamente. Esse tipo de trabalho só as escolas e faculdades podem fazer... o escritor não pode ser estudado no vazio, sem ferramentas adequadas. Se o escritor não for estudado nas escolas a obra dele vai enterrada junto com ele. Quantos milhões de escritores sabemos que sua obra foi junta pra tumba com ele.....


Qual a linha de sua escrita?

Linhas tortas.... tenho a pretensão de ser uma graciliana do ramo ( brincadeira!!!!) Há muitos anos atrás eu li as 110 regras de estilo de Ernest Hemingway. Não dei muita atenção, mas atualmente estou criando também 110 regras de meu estilo. É só em número que homenageio Hemingway ( já lancei 22 no meu blog), em muitas coisas penso totalmente diferente dele. Eu penso que se a Literatura é tudo, escrevo sobre tudo. Eu tenho tropeços em Português, muito curiosos, mas são propositais. Sou muito apaixonada por dicionários e o pai dos inteligentes é um bom livro de leitura.Tenho coleções deles.



Quais são os temas atuais que nós, escritores, devemos
atuar?

Atualmente, observo que já não se faz romance como um Kafka fazia... um Dostoiévski... todos os temas são direcionados para o que está em voga no mundo. Tudo é feito para um mercado de consumo e de venda. Acho que fica uma coisa bem pessoalizada....cada um vai escolhendo seu caminho, seus desejos, seu jeito de fazer e de publicar. Publicar em papel por uma grande editora é quase impossível. Nem existe mais essa questão de se mandar um original na sorte porque nem sorte há mais. Não existe mais nas editoras um corpo editorial de leitura de originais enviados pelos escritores pelos correios. Falo isso porque tenho muitos amigos editores e é isso que eles me contam. Só nos resta nos adaptarmos aos novos tempos. É aquela coisa: a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. Se o autor tomar a dose certa....ele publica, se tomar o veneno morre sem publicar nada. O veneno é o próprio desalento, a falta de incentivo, a falta de motivação, a falta de dinheiro.... tudo isso junto mata qualquer autor. Se você não é duro na queda não publica sequer um livro. Publicar não quer dizer virar Paulo Coelho. Publicar pode ser um registro.


Como resolveria a questão da violência no Rio de
Janeiro e no país?

Eu me sinto uma mutante no Rio de Janeiro. Tenho uma "chave" para viver nessa cidade. A violência aqui só seria resolvida com muita escolaridade. É difícil, é penoso passear pelo bairro mais famoso do Planeta Terra (Copacabana).... Para mim, o Rio de Janeiro é o lugar mais lindo do mundo, é o que eu mais amo nessa vida e é o lugar mais difícil para se morar.

Dez anos depois de seus cursos em São José dos Campos
que frutos vê? Se voltasse a dar aulas aqui o que
seria diferente?

Eu sou uma pessoa muito antenada. Eu direcionaria meus alunos para publicar primeiro na internet, só depois no papel. Acho também que só deve continuar nesse ramo quem tem muita vocação e não depende de dinheiro de publicação para morar e comer. Quem quer ganhar dinheiro com Literatura não deveria fazê-la. A criatura pode escrever outros tipos de livros. Zíbia Gaspareto, é a pessoa que mais vende livro no Brasil.... mas ela sabe e é consciente de que não faz Literatura. O autor (a) não pode é encher a boca, dizer que é poeta e fazer porcaria. Vai fazer outra coisa, se não sabe escrever.... O mundo é grande e existem milhões de profissões.

Como estão as letras hoje no País? e as artes em geral?

As universidades estão bem....centenas e centenas de teses... eu mesma sou objeto de teses...Mas autores mesmo para mim são os mesmos. Não leio nada de novo. Aqui no Rio continuo lendo meus colegas....é o Chacal, o Mano Melo, o Edu Planchêz, a Leila Micolis. Entro nas livrarias todo dia e só vejo romances sobre guerras em Jerusalém, sobre Bin Laden, livreiros de Istambul, essas coisas. Não leio nada que preste. Continuo lendo os clássicos do mundo inteiro porque os compro em sebos e são garantia de que prestam. As artes plásticas no Brasil é dez e o teatro também.


Considerações finais:

Nessa vida eu só quero beijar o Ícaro, ter um toco de lápis e um caderno. Só.

http://www.rosakapila.zip.net/

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

PARCEIROS DE GRANDES NOVIDADES





Um texto ao irmão Cazuza...

Chove e ando pela cidade catando sonhos no chão como os pombos catam milhos... Vivo tentando despertar dos sonhos. É muito estranho, a metafísica, para mim, é o tempo todo. Dimensões nos cercam e o universo conduz nosso caminho, pois somos Caminhantes de estrelas.

Enquanto escrevo estas linhas sinto fome e ao terminar, comerei uma pamonha ao lado do mercado municipal. Mas o que isto tem a ver com você leitor? Tudo! Tudo é tudo e nada mais. Já sabe o leitor que o milho faz parte de nossa alimentação, então tudo tem a ver porque pode-se falar de comida em textos curtos e longos. Brincadeiras de roda, vejo crianças brincarem pelo centro da cidade e ainda não fiz minha leitura de hoje. Não há sol e caminho com meu velho guarda-chuva. A cidade tranqüila às vésperas de mais um carnaval.

Volto a conversar com aquela mulher que só ouço a voz por telefone e vejo suas imagens pela internet, mas nos damos muito bem. Não ligo quando ela critica minha gramática. É ruim mesmo! Gosto de mulheres que mandam e não das que obedecem. Não quero ser o rei do lar e sim um parceiro de grandes novidades. Nossas mentes se dão bem, nossas almas se enlaçam e os nossos corpos? Quem sabe? Quem sabe? Tudo é perto e longe ao mesmo tempo e tudo pode ser alcançado.

Uma manhã quase termina e vem chegando o meio-dia; Sapos nadam nos rios, meus velhos óculos escorregam pelo nariz, minha velha sinusite dá sinal de vida e o tempo escorre pela ampulheta. Devo terminar o que ainda não comecei?

Ao leitor, desejo um bom carnaval. Quero estar trabalhando em Paraibuna, ganhando uns trocados e me divertindo.

Olha o trem das onze, ai gente. Vou me indo e a tal da metafísica como fica? Perguntem a ela! Vibrem e façam muita festa porque vem ai o Carnaval. Queria poder ver como eram os carnavais em outras épocas quando ainda não era degenerado.

Os Deuses e Deusas estão voltando e ai renascerá a Idade do Ouro.

João Carlos Faria

http://www.cidadedaspalavras.com.br/

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

BATE PAPO COM O POETA DAILOR VARELA






No dia 09 de fevereiro de 2008, às 11 da manhã o grupo Cidade das Palavras levou até ao Espaço Mario Covas, Dailor Varela, um personagem notável de São José dos Campos, para um bate-papo muito agradável.

Dailor Varela falou ao público presente de sua obra poética, com objetividade e humor, entremeando sua palestra sobre a Poesia de Vanguarda com interessantes e saborosos comentários a respeito de nossa gente e nossa cidade. Esboçando um quadro da evolução das formas poéticas (do romantismo à poesia de vanguarda) falou-nos dos expoentes da poesia de vanguarda no Brasil, fazendo um paralelo com a construção de sua própria obra poética.

Em um tempo relativamente curto, deu-nos uma visão bem ampla do assunto. Através de suas citações, além de reavivar nossa memória para um contexto cultural importante de nossa cidade (no qual ele tem um papel significativo), passou-nos um grande interesse pelo tema "Poesia de Vanguarda" e principalmente deixou bem marcado seu amor pela poesia (profundamente integrada à sua forma de viver).

Lembrando uma de suas reflexões durante a palestra (não com as mesmas palavras), "mesmo quando tenta "enxugar" sua poesia, ou mostrar a realidade do mundo em que vive através de um poema figurativo, o poeta sempre continua um romântico". E, o belíssimo poema dedicado ao seu filho Caio é um exemplo disso.

Maria Lúcia G. Martins


Avalon
Cyberespaço, Casa-Grande e Senzala.
Há algums pensadores do nosso país que ilustram a formação de nossa sociedade como algo polarizado; a Casa-Grande, o lugar dos que tem cultura, e a Senzala, o lugar dos que não tem cultura e que sofrem de mazelas, como discriminação ou exclusão, por falta desta. Particularmente eu concordo com esta sugestão.

A massa que pertence a Senzala, com o tempo, inevitavelmente viria a pesar sobre toda a sociedade na forma de rebaixamento dos indices de desenvolvimento social. Isto acontece na forma de abarrotamento dos sistemas de educação/saude/segurança por uma massa não pagante de impostos, pois assim o cobertor orçamentário torna-se mais curto que o necessário, empurrando os sistemas para a beira da falência de qualidade ou efetividade, com todas as consequencias disto. Em suma; eles foram abandonados e um dia seu peso social se fez sentir. Essa eh a situação que vivemos hoje.

Pois bem, quero com isso argumentar que nós vivemos essa situação hoje, de quase desespero social, ou convulsão social como dizem algums, principalmente porque no passado havia muros, muros entre a Casa-Grande e a Senzala, que persistiram por séculos. Tais muros, estes são nossos inimigos mais que qualquer coisa. Tais muros persistem até hoje. Porque eles separam, e quando separam rebaixam uma parte da sociedade que fará peso na outra inevitavelmente.

Hoje há um terceiro ambiente, como sugere o titulo do tópico: o Cyberespaço. Na minha opinião este eh um ambiente que pode vir a fazer desabar estes muros, para isto eh necessário que o Cyberespaço seja utilizado para Mesclar nichos: mesclar nichos de excelencia com nichos deficientes dentro da sociedade, regional ou mundial. Isto eh uma força que atua no sentido de minimizar diferenças. Isto tem um grande impacto no psicologico das pessoas se considerarmos as implicações de natureza humana envolvidas; o receber, se beneficiar e fazer parte.

Este tópico eh destinado a explorar possibilidades quanto a utilização do Cyberespaço para Mesclar nichos e assim fazer cair os muros.
http://www.orkut.com/CommMsgs.aspx?cmm=21736&tid=2521400313968902289&kw=senzala

Critica

Olá, Joca.
Tenho andado ocupado com a revisão do Novo Site.
Grato pela publicação da " Papoula ".
Agora quanto ao CD Kaoticidade, acredito que faltou direção artística.
Não ouvi todas as faixas, vou procurar ouvir todas.
A Bete Bino tem uma boa voz, faltou estudar os textos para fazer a leitura.
Gostei muito de seus textos, falta que na leitura, os intérpretes sintam cada verso.
Você tem uma boa perfomance no palco, mas no CD está atropelando as palavras.
É preciso não esquecer que para o espaço mudo em texto, existe uma trilha compondo o todo.
Quando não temos uma trilha já escolhida, a imaginação do intérprete deve criar esta trilha.
Isto chama-se melodia ( que existe em todo poema ).
Encontrada a melodia, a harmonia da leitura flui no encontro dos dizeres do poeta.
Seus textos exigem ensaios de leituras, não podem simplesmentes serem jogados na boca do leão.
Achei bem original o som criado para as trilhas.
Acredito que quando demoramos para apresentar um trabalho.
Quando promovemos a apresentação, não pode ser na base do oito ou oitenta!
Sei das dificuldades encontradas para fazer o trabalho de gravação.
Mas, convenhamos que se não temos um estúdio sempre a disposição, quando conseguimos uma vaga.
Já deveremos ter todo o trabalho elaborado.
E não deixarmos para fazer ensaios no Estúdio.
Aqui em Meu Fundo de Quintal, são raros os ensaios que aprovo na primeira leitura.
O Mais difícil, é que tenho de ser a parte artística e a parte técnica.
Além de ser crítico de mim mesmo.
Desculpe a intromissão, mas depois que li e reli Joca Faria na formatação de " Retinas ".
Aprendi a conhecer do Poeta.
Um abraço
Renato

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

NOS TEMPOS DA EMERGÊNCIA

Nos tempos da emergência
Da série: no meu jardim eu só avistava algarobas

Meu irmão mais velho chama-se Raimundo Gomes Lacerda, ele saiu de casa muito jovem, em busca do ouro prometido, saiu num caminhão com destino ao Estado de Goiás. Ele e muitos outros vizinhos, o caminhão (pau-de-arara) ficou pequeno pro tamanho daquele sonho, potes de lágrimas molharam o solo sertanejo, filhos que partiam sem cep definido, sem medo do desconhecido... maridos deixando saudade e a incerteza da volta.
Com meus 5 anos, curti o alvoroço daquele povo, curti a movimentação tão atípica daquele amanhecer.
Meu irmão sofreu muito durante todo período da viagem, 15 dias até chegar lá em Goiás, o ano: 1970. Estradas sem asfalto, alimentação escassa, febre... meu irmão era jovem e estava orgulhoso, iria trabalhar pra ajudar a família, pra conseguir comprar finalmente sua bicicleta Monark Vermelha (sonho de consumo daquela época.
Um novo sol aparecia no horizonte, uma chance de tornar-se um verdadeiro cidadão, pra sair da dependência daquele trabalho tão emergencial, mas isso não seria tão fácil...
Antes mesmo de sair do solo sertanejo, meu irmão pensou em desistir, sentiu um certo mal estar na alma, uma tremenda insegurança na pele, mas prosseguiu... nesses 15 dias de viaje, muita doença envolvendo todos, muita febre, falta de alimentação, morte.
- o medo habitou o pau-de-arara -
Nada do que foi combinado foi cumprido, meu irmão abandonou o projeto inicial e no ano de 1972 resolveu ir pra São Paulo.
Era o auge da carreira do Roberto Carlos... os cabeludos invadiam a moda nacional.
Foi nesse estilo, que meu irmão no ano de 1974 voltou pra Patos PB.
Calça boca de sino, costeleta caprichada, cabelos compridos, sotaque modificado, mania de tomar banho morno e presentes na mala...
O presente que mais marcou nossa memória e família, foi uma imagem da Nossa Senhora de Aparecida, uma imagem linda, ornamentada com luzes coloridas... energia elétrica já fazia parte da nossa realidade... ao chegar a noite, ligamos “a santa” na tomada, espetáculo total, às luzes chamavam a atenção de toda vizinhança, todo dia lá em casa passou ser dia de natal.
Vinham gente de todo o bairro, rua do meio, da palhoça, filho de fulano, esposa de sicrano...
Eu ficava esperando chegar o anoitecer pra que nossa casa pudesse receber tanta gente, tantos olhares, a santa realmente operava milagres.
Eu sempre amei muito futebol, sempre quis jogar bola, e aos 9 anos de idade, essa vontade era ainda mais presente, ensaiava meus treinos em qualquer lugar, os dedos dos meus pés sempre recebiam “cobertura nova”, tinha muita pedra no meu caminho.
Meu irmão do meio, Luis Ribeiro Gomes, sempre dava uma força pros meus sonhos se realizarem, até arriscava brincar comigo, a idade nos apontava caminhos bem opostos.
Um belo dia, chamei meu irmão pra jogar bola, o local escolhido: a sala de casa... era um espaço amplo, cimento lisinho, dois gols improvisados: nascia o estádio.
O jogo começou animado, conhecendo timidamente o adversário... chutes prá lá, divididas prá cá, êpa! foi falta: era a minha chance... um lindo golaço eu iria marcar... meu irmão aposto no gol... um chute fulminante! Errei o alvo... a bola foi direto na santa... cacos de vidros espalhados pela sala, minha alma apagada, a horrorização do ato, a santa exposta, olhar de desaprovação, receio e medo: adeus salvação.
Eu chorava... chorava... recolhia cacos da nossa preciosidade, nosso tesouro importado, minha carreira de boleiro estava arruinada, meu irmão fugiu...
Comecei a cair num profundo desespero, não sabia pra quem pedir socorro, a santa em pedaços, vizinhos já desconfiados, acabará o natal pra todos nós...
Depois de algum tempo meu irmão apareceu e eu perguntei: Onde você estava? Porque não veio me ajudar?
Ele simplesmente falou: fui avisar a mãe do que você fez... como assim? Você estava comigo, dividiu a brincadeira, como me acusar?
Mas foi você quem chutou a bola, errou o alvo...
Mas você nem se esforçou pra pegar a bola...
A mãe chegou do serviço e aplicou o castigou: suspendeu o que eu mais gostava de fazer: jogar bola... pro meu irmão sobrou o castigo de não mais pular da ponte do Rio Espinharas... meu irmão tinha cada gosto esquisito...
D. Terezinha sempre teve muita categoria, evitava bater em nós, tratava na palavra... mas naquele dia eu vi a chorando, quietinha, fazendo sua oração perto dos “cacos de Nossa Senhora de Aparecida”, pedindo perdão pela má pontaria dos filhos, pedindo perdão pelo vazio da sala, pedindo perdão pela ausência de uma santidade na nossa família.
Minha mãe naquele dia chorou lágrimas de santa, e ganhou o arrependimento angelical e inocente dos filhos...

Réginaldo “Poeta” Gomes 06/02/2008.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

DIÁLOGO TEXTUAL - GERMANO VIANA XAVIER

ESPELHO, ESPELHO MEU! (Ou quando a Babel é humana)


Espelho, espelho meu, há no mundo alguém tão parecida comigo?
Olho para o espelho e vejo a mim mesma...Bom, então não há dúvidas que sou eu quem está do outro lado do espelho, ou há?
Meus gestos insanos são repetidos pela imagem na minha frente com tanta naturalidade que chega a assustar.
Incisiva, a imagem me olha no fundo dos olhos, o que me deixa perplexa diante de mim, trazendo o benefício da dúvida.
Será que sempre fomos assim, minha imagem e eu?
Será que essa que olho do outro lado do espelho é uma farsa que me faz acreditar nos seus gestos calculados?
Observo seus gestos semelhantes e em perfeita sincronia com os meus. Não consigo pegá-la distraída em algum instante fugaz, onde possa denunciar alguma diferença.
Repete meus gestos suavemente, compartilhando o momento como se fosse ela mesma, uma criatura real.
Olha para mim, como se conhecesse todos os cantos do meu ser, despindo-me diante do espelho.
Nessa cumplicidade silenciosa ficamos encantadas, minha imagem e eu. Um encanto do qual desconhecemos a causa e o efeito, mas são quase perceptíveis nossas idas e vindas por tempos imemoráveis e lidas pelo espaço sem fim.


(Elizabeth, São José dos Campos)

“No vestíbulo há um espelho, que fielmente duplica as aparências”, escreveu Jorge Luís Borges em seu conto A Biblioteca de Babel, já quase tomado pela cegueira, mas inda dominado pelo seu gênio literário.

Babel é o homem, e é também o espelho. Babel é a réplica fundada em símbolos ocasionais, e é também a moça tomada de encanto no canto qualquer de um qualquer cômodo, moça prostrada diante de sua semelhança. A infantilidade perdida no olho do assombramento, no moinho da descoberta. O que restará ao homem ante o vazio de se saber? Pode o homem conhecer sua Babel completa?

Borges fuça, dizendo: “Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que essa duplicação ilusória?)”.

A Biblioteca é o mundo, e é também Babel. A rosa doentia, maculada pela nódoa da história. A Biblioteca é o sentimento dos extensos processos e das ininteligíveis relações. A Biblioteca é a vida, e é também o homem, o experimento.

A moça do espelho, distantemente perdida, perdidamente distante, atravessa o corredor do decrépito aposento. Tão jovem e já tão vítima. Punhal que dilacera é o saber. Adaga que perfura o fundo, fundo, é o saber-se. Sabre sem governo, máquina de guerra. A bomba que extravasa. Até onde o homem sabe? Até quando o homem saberá que sabe?

A moça, distante e perdida, agora destece o tecido das estantes. Livros que voam, livros que planam, livros que tombam. Outros que dançam. Será mesmo o chão o limite? Quem garante que tudo não passa de ilusão? Onde a fronteira? A menina estende o braço iradamente, torna-o rijo e ataca as enciclopédias. Lombadas feridas, brochuras brocham, alfarrábios esfarelam-se, catataus viram folhas inermes, o ar é tomado pelo pó. Há um embate entre o real e o imaginário. A Babel inicia. A Biblioteca é um corpo sólido, matéria de convulsões.

Adiantará o corte na face? E o que vem de dentro, não trucida? Não esquarteja a pelanca do homem? Adiantará a dúvida? Borges responde: “Prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito...” A moça corre, não pára. Difícil demais o convívio com o saber-se. Difícil demais a dor de ser...

Exercício de diálogo textual. Agradeço a Elizabeth (http://mundodebeth.blog.terra.com/) por permitir a feitura dessa "conversa" a partir de seu texto, intitulado "Espelho, espelho meu!!!". Usei excertos do conto "A Biblioteca de Babel", do escritor argentino Jorge Luís Borges, que consta no livro "Ficções".

Visitem o blog do Germano (é só clicar no link aqui do lado direito):

http://clubedecarteado.blogspot.com

ESPELHO, ESPELHO MEU!!!

ESPELHO, ESPELHO MEU!!!

Espelho, espelho meu, há no mundo alguém tão parecida comigo?

Olho para o espelho e vejo a mim mesma...Bom, então não há dúvidas que sou eu quem estou do outro lado do espelho, ou há?

Meus gestos insanos são repetidos pela imagem a minha frente com tanta naturalidade que chega a assustar.

Incisiva, a imagem me olha no fundo dos olhos, o que me deixa perplexa diante de mim, trazendo o benefício da dúvida.

Será que sempre fomos assim, minha imagem e eu?

Será que essa que olho do outro lado do espelho é uma farsa que me faz acreditar nos seus gestos calculados?

Observo seus gestos semelhantes e em perfeita sincronia com os meus. Não consigo pega-la distraída em algum instante fugaz, onde possa denunciar alguma diferença.

Ela repete meus gestos suaves, compartilhando o momento, como se fosse ela mesma, uma criatura real.

Olha para mim, como se conhecesse todos os cantos do meu ser, despindo-me diante do espelho.

Nessa cumplicidade silenciosa ficamos encantadas, minha imagem e eu. Um encanto do qual desconhecemos a causa e o efeito, mas é quase perceptível nossas idas e vindas por tempos imemoráveis e lidas pelo espaço sem fim.

Elizabeth

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

PAPOULA

Papoula

Na perda dos sentidos em sentidos
De teus encantos criarem meus prazeres
Feitos de ilusões dos amores proibidos
Em corpo de alma livre de pesares

No mistério do invisível bailado
Do corpo nu com olhares interiores
Sem enganos em planos do lado a lado
O ópio não traz medo dos viveres

Igual volta ao paraíso temer adeus
Das mãos dadas no vôo do escolhido
O gozo nasce de devaneios meus e teus

Em meio do meio risco ser esquivo
Ao desejo do amante pretendido
Na flor da Papoula fico nativo

E preso ao poeta, no criar entrelaço!

Ramoore


Obs.

As flores da Papoula representam fertilidade, ressurreição, sonho, extravagância, fragilidade e beleza efêmera.

Suas cores também possuem significados isolados, como: vermelha – prazer e extravagância,

sendo utilizada quando há o desejo por um amor fora do comum;

flores amarelas – é relacionada á saúde e ao sucesso;flores brancas – relaciona-se ao consolo,

segundo a mitologia por ter sido criada pela deusa Céres,

para abrandar sua dor enquanto procurava por sua filha Prosperine.

A Papoula de flores brancas é também recomendada como presente para pessoas que têm dificuldades com insônia.

....................

Ópio – aquilo que causa entorpecimento moral

carnavalllll

Poesia de "carnaval". Bom descanso à todos!
BeijosAnti Limite

Morro a cada vez que ouço
Isto não é possível!
Não pode ser feito.
Não cai bem...

E minha verdade absoluta!
A quem convém?
A ninguém!
A nada...

Então a sociedade é relativa
Meu estado é redundante
Não posso me afastar da vida
Tão pouco ter meu nome real

Publicado aos quatro ventos elementais
Entoado como cânticos de carnavais
Tântricos, mântricos e santos!

Não posso. Não serei. Morrerei.
Mais que isso.
Sentirei vazio de nunca poder

Dar um murro na face das regras
Que gozam quando fodem com minha
Vontade de ser Eu e mais além.

(Emilia Ract)

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

AO POETA EDU PLANCHÊZ

Homem de cocô (Ao poeta Edu Planchez)

Agora tudo é recordação, aquele rapaz que circulava pelo Largo da Lapa, hoje em dia é pura lenda, pois muitos anos já se passaram, muitas caras já se foram, seus milhares de rostos embarcaram num transe efêmero de uma fantasia qualquer, este pequeno grou alçou um vôo razante sobre o abismo da loucura, este homem é o cameleão que se vestiu de uma cor só, agora contempla as faces da metrópole, descansando a légua de pedra.
Cegos, mudos e surdos vivem a harmonia deste grande silencio, que hoje paira sobre os acontecimentos, é um universo que rege um único acorde, o de perguntas sem respostas!
Cadê você no espelho do cosmo? Onde está o corpo de planetas que você usa em seus olhos? Saia de trás desta estrela. Acorda os encantos da noite feminina, a lua è que mais espera por ti para revelar-te grandes novidades! Vem dar um abraço no vento que assobia a vida em uma sinfonia perfeita.
A esquina da rua subiu as escadarias do bairro de Fátima, é maravilhoso o sonho que circula nos bondes a caminho de Santa Teresa.
Os arcos da Lapa sorriem histórias, vagam muitas almas de boêmia, o trem para as estrelas fez sua primeira parada, a escalada para o céu inspira saudades de um tempo de navalha, terno de linho branco, sapato duas cores, malandragem carioca e perfume de gardênia.
A Rua do Passeio é festiva, as cores são mais fortes sem preconceitos, Amarelinho, vem cá meu nobre garçom brindar com chope o dia internacional da cerveja, a Cinelandia continua viva estrelando poesia.
As noites cariocas apologizam a sinceridade Homérica do aterro do Flamengo, já em Ipanema as 18:00 horas os habitantes da praia se despedem do sol com uma salva de palmas.
A pedra do Arpoador tem gosto de Bossa Nova, o mar se perde no horizonte, na Baia de Guanabara, a Ilha do Governador não é mais um cartão postal.
O adivinho, senhor supremo da palavra, o grande Silattian desfila pelo centro da cidade, malabarista do sossego vai penetrando as cartas do târo, a numerologia abaixa a carta oito de paus, é o aviso que todo mundo precisava para dobrar a esquina do futuro.
O rapaz de camisa branca vai encostar-se ao poste, sem observar que sua camisa sairá suja de cocô, sem perceber nada, anda todo quarteirão sentindo o mau cheiro, resmunga pensando de onde viria todo este mal, de repente não mais que de repente, passa a mão pelas costas e enche a mão de dejetos fecais, no ato resolve tirar a camisa e tira e a coloca pendurada em um muro em frente e retorna o caminho de casa, para a sua surpresa, quando ele volta ao local, a camisa já havia sido levada.
Não é por puro acaso que estas paradas abrigam muitas pessoas disparadas das idéias, a loucura é tanta que se chega a duvidar que o Cristo Redentor esteja de braços abertos ainda, afinal de contas à modernidade já chegou a seus pés, quanto luxo subir para o Cristo de escadas rolantes, sem falar que foi o Banco Real que patrocinou quase toda a obra.
Na janela, decimo quinto andar, posto seis, avenida Barata Ribeiro, um velho poeta observa a noite funda de estrela, procura o sol na escuridão, bebe a lua com limão e degusta a madrugada no íngreme das altas horas.
Nada de positivo ao vermos o olhar convexo das palavras, todos as formas passam pelo crivo imediato das tendências, o mundo velho mistura-se ao cotidiano, cores rápidas perdem-se no fundo azul, belas estrelas, os corpos desfilam o bronzeado num paraíso despido de razão.
O sol já teve o dia por completo, uma forma exata de dizer que a noite está apenas começando, valsam as estrelas embelecidas de tanto céu, anônimos circulam em muitos passos para lugar nenhum.
A cidade anda sozinha nas areias escaldantes da simplicidade, o novo aguarda uma maneira livre de se mostrar nas calçadas, a luz artificial finge o dia na extensão da orla, múltiplas ondas quebram o jejum a beira mar.
Os Homens e seus papeis materializam a dialética de seu tempo, fatos e resíduos de um pressuposto gesto, uma vontade racional que a tudo precede, a ótica que focaliza em meros movimentos metafísicos, o que sempre será simples espelho dos arquétipos, um sentido sugeneris, animais trotando sobre o não explicado.

Marcelo Planchez