segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

AO POETA EDU PLANCHÊZ

Homem de cocô (Ao poeta Edu Planchez)

Agora tudo é recordação, aquele rapaz que circulava pelo Largo da Lapa, hoje em dia é pura lenda, pois muitos anos já se passaram, muitas caras já se foram, seus milhares de rostos embarcaram num transe efêmero de uma fantasia qualquer, este pequeno grou alçou um vôo razante sobre o abismo da loucura, este homem é o cameleão que se vestiu de uma cor só, agora contempla as faces da metrópole, descansando a légua de pedra.
Cegos, mudos e surdos vivem a harmonia deste grande silencio, que hoje paira sobre os acontecimentos, é um universo que rege um único acorde, o de perguntas sem respostas!
Cadê você no espelho do cosmo? Onde está o corpo de planetas que você usa em seus olhos? Saia de trás desta estrela. Acorda os encantos da noite feminina, a lua è que mais espera por ti para revelar-te grandes novidades! Vem dar um abraço no vento que assobia a vida em uma sinfonia perfeita.
A esquina da rua subiu as escadarias do bairro de Fátima, é maravilhoso o sonho que circula nos bondes a caminho de Santa Teresa.
Os arcos da Lapa sorriem histórias, vagam muitas almas de boêmia, o trem para as estrelas fez sua primeira parada, a escalada para o céu inspira saudades de um tempo de navalha, terno de linho branco, sapato duas cores, malandragem carioca e perfume de gardênia.
A Rua do Passeio é festiva, as cores são mais fortes sem preconceitos, Amarelinho, vem cá meu nobre garçom brindar com chope o dia internacional da cerveja, a Cinelandia continua viva estrelando poesia.
As noites cariocas apologizam a sinceridade Homérica do aterro do Flamengo, já em Ipanema as 18:00 horas os habitantes da praia se despedem do sol com uma salva de palmas.
A pedra do Arpoador tem gosto de Bossa Nova, o mar se perde no horizonte, na Baia de Guanabara, a Ilha do Governador não é mais um cartão postal.
O adivinho, senhor supremo da palavra, o grande Silattian desfila pelo centro da cidade, malabarista do sossego vai penetrando as cartas do târo, a numerologia abaixa a carta oito de paus, é o aviso que todo mundo precisava para dobrar a esquina do futuro.
O rapaz de camisa branca vai encostar-se ao poste, sem observar que sua camisa sairá suja de cocô, sem perceber nada, anda todo quarteirão sentindo o mau cheiro, resmunga pensando de onde viria todo este mal, de repente não mais que de repente, passa a mão pelas costas e enche a mão de dejetos fecais, no ato resolve tirar a camisa e tira e a coloca pendurada em um muro em frente e retorna o caminho de casa, para a sua surpresa, quando ele volta ao local, a camisa já havia sido levada.
Não é por puro acaso que estas paradas abrigam muitas pessoas disparadas das idéias, a loucura é tanta que se chega a duvidar que o Cristo Redentor esteja de braços abertos ainda, afinal de contas à modernidade já chegou a seus pés, quanto luxo subir para o Cristo de escadas rolantes, sem falar que foi o Banco Real que patrocinou quase toda a obra.
Na janela, decimo quinto andar, posto seis, avenida Barata Ribeiro, um velho poeta observa a noite funda de estrela, procura o sol na escuridão, bebe a lua com limão e degusta a madrugada no íngreme das altas horas.
Nada de positivo ao vermos o olhar convexo das palavras, todos as formas passam pelo crivo imediato das tendências, o mundo velho mistura-se ao cotidiano, cores rápidas perdem-se no fundo azul, belas estrelas, os corpos desfilam o bronzeado num paraíso despido de razão.
O sol já teve o dia por completo, uma forma exata de dizer que a noite está apenas começando, valsam as estrelas embelecidas de tanto céu, anônimos circulam em muitos passos para lugar nenhum.
A cidade anda sozinha nas areias escaldantes da simplicidade, o novo aguarda uma maneira livre de se mostrar nas calçadas, a luz artificial finge o dia na extensão da orla, múltiplas ondas quebram o jejum a beira mar.
Os Homens e seus papeis materializam a dialética de seu tempo, fatos e resíduos de um pressuposto gesto, uma vontade racional que a tudo precede, a ótica que focaliza em meros movimentos metafísicos, o que sempre será simples espelho dos arquétipos, um sentido sugeneris, animais trotando sobre o não explicado.

Marcelo Planchez

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