segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

JOCA FARIA ENTREVISTA A ESCRITORA ROSA KAPILA















Quem é Rosa e onde nasceu?

Eu nasci em Picos, no Piauí. Apesar de fazer um exame de consciência todo dia e de meditar muito eu não saberia me definir. Alguns amigos me definem como uma pessoa elétrica, bem humorada, irônica, caridosa e que quer resolver o problema antes que ele apareça. Sempre quis tudo pra ontem, faz parte de minha personalidade.

Por que o interesse pela literatura?

Nesses dias eu estava querendo me lembrar como era minha vida antes da literatura. Não existe. Desde que me alfabetizei, vivo com um caderno na mão. Minha vida não pode ser dividida entre antes e depois da literatura. Minha vida é a Literatura. Eu só sei que "antigamente" eram escritos mais poemas do que textos corridos. Hoje este costume voltou devido a internet, para facilitar o leitor e pelo tempo curto das pessoas. O poema concentra uma idéia ou várias idéias e o bom escritor pode testar bem a literariedade (só ela faz com quê um texto seja literatura ). Eu acho que cada palavra precisa ter o tamanho exato da emoção. Há trinta anos eu não publicava poesia... hoje em dia publico poemas virtuais. O escritor sempre achou uma saída.

Como vê este movimento hoje?

Hoje em dia fica difícil definirmos Literatura. Eu só sei que por causa do estômago, surgiu a literatura. Na Idade da Pedra os homens iam para as caçadas e, caçar significava trazer alimento para todo o grupo. Muitas vezes alguns dos caçadores morria ou ficava aleijado. Com o passar do tempo, um dos caçadores distinguiu-se por uma qualidade: sabia contar melhor do que os outros como tinha sido a caçada. Este caçador ficou sendo um porta-voz. Eu sempre procuro ler o contemporâneo, o ano em que estou vivendo. Mas atualmente acontece um fato interessante: os economistas são os novos escribas da humanidade, eles sabem o que vai acontecer conosco. Nós, escritores, trabalhamos de graça, como os relógios. Todo escritor sabe o quanto dói essa saudade.... o não recebimento de direitos autorais.
Como aproveita a internet para se divulgar?
Acho que a internet é uma metáfora agrícola: "a salvação da lavoura" . Também acho que andamos longe de aproveitarmos o potencial da net. Esse instrumento poderia ser o maior produtor de conhecimento do mundo... infelizmente há de tudo nela, mas pelo menos o autor já não fica mais sem eira nem beira, inédito para sempre. Todo escritor deve programar bem o conteúdo de seus textos para a net. Como noventa e nove por cento não presta.... se o seu texto é bom, se o seu poema ou conto for bem escrito, se você souber dominar bem técnicas, seu texto será reconhecido no mundo inteiro. Pieguice não vence.... Não é porque o veículo é facilitador de comunicação que o profissional vai ser exímio e virtuose. Besteira qualquer um escreve. Todo escritor tem que ser aquele caçador que melhor conta a história da caçada. É preciso lembrar que sucesso é uma coisa, realização é outra.


Educação e cultura: como estarem juntas para o
desenvolvimento cultural do país?

Hoje em dia a palavra "cultura" passou por uma nova formulação. Há a cultura do café, a cultura do artesanato, a cultura do índio e por aí vai.... Se o indivíduo faz bem uma determinada coisa, ele é bom naquela cultura. A escolaridade ajudaria muito. Sem estudar, sem pesquisar, fica difícil alcançarmos determinados fins. Fica impossível inventarmos nossos caminhos sem termos um material pedagógico adequado. É só lermos Pedagogia do Oprimido de Paulo Freire.



O poder público na cultura não cria uma arte atrelada
a governos? Como no caso do pianista que inaugurou uma
TV estatal na venezuela?

Desconheço o caso do pianista na Venezuela. O poder público tem obrigação sim, pois nós pagamos até o ar que respiramos para o governo. Fazemos por muita pessoas o que o Estado deveria fazer. O mundo dos livros por exemplo, que é o meu mundo... se o autor não fizer parte do cânone ele não é reconhecido pela sociedade. Todas as teorias literárias são criadas em cima da arte do romance, do conto, do poema. Os tipos de personagens, o foco narrativo, o texto lírico.... tudo isso foi criado para que os poemas, os romances e os contos fossem estudados adequadamente. Esse tipo de trabalho só as escolas e faculdades podem fazer... o escritor não pode ser estudado no vazio, sem ferramentas adequadas. Se o escritor não for estudado nas escolas a obra dele vai enterrada junto com ele. Quantos milhões de escritores sabemos que sua obra foi junta pra tumba com ele.....


Qual a linha de sua escrita?

Linhas tortas.... tenho a pretensão de ser uma graciliana do ramo ( brincadeira!!!!) Há muitos anos atrás eu li as 110 regras de estilo de Ernest Hemingway. Não dei muita atenção, mas atualmente estou criando também 110 regras de meu estilo. É só em número que homenageio Hemingway ( já lancei 22 no meu blog), em muitas coisas penso totalmente diferente dele. Eu penso que se a Literatura é tudo, escrevo sobre tudo. Eu tenho tropeços em Português, muito curiosos, mas são propositais. Sou muito apaixonada por dicionários e o pai dos inteligentes é um bom livro de leitura.Tenho coleções deles.



Quais são os temas atuais que nós, escritores, devemos
atuar?

Atualmente, observo que já não se faz romance como um Kafka fazia... um Dostoiévski... todos os temas são direcionados para o que está em voga no mundo. Tudo é feito para um mercado de consumo e de venda. Acho que fica uma coisa bem pessoalizada....cada um vai escolhendo seu caminho, seus desejos, seu jeito de fazer e de publicar. Publicar em papel por uma grande editora é quase impossível. Nem existe mais essa questão de se mandar um original na sorte porque nem sorte há mais. Não existe mais nas editoras um corpo editorial de leitura de originais enviados pelos escritores pelos correios. Falo isso porque tenho muitos amigos editores e é isso que eles me contam. Só nos resta nos adaptarmos aos novos tempos. É aquela coisa: a diferença entre o remédio e o veneno está na dose. Se o autor tomar a dose certa....ele publica, se tomar o veneno morre sem publicar nada. O veneno é o próprio desalento, a falta de incentivo, a falta de motivação, a falta de dinheiro.... tudo isso junto mata qualquer autor. Se você não é duro na queda não publica sequer um livro. Publicar não quer dizer virar Paulo Coelho. Publicar pode ser um registro.


Como resolveria a questão da violência no Rio de
Janeiro e no país?

Eu me sinto uma mutante no Rio de Janeiro. Tenho uma "chave" para viver nessa cidade. A violência aqui só seria resolvida com muita escolaridade. É difícil, é penoso passear pelo bairro mais famoso do Planeta Terra (Copacabana).... Para mim, o Rio de Janeiro é o lugar mais lindo do mundo, é o que eu mais amo nessa vida e é o lugar mais difícil para se morar.

Dez anos depois de seus cursos em São José dos Campos
que frutos vê? Se voltasse a dar aulas aqui o que
seria diferente?

Eu sou uma pessoa muito antenada. Eu direcionaria meus alunos para publicar primeiro na internet, só depois no papel. Acho também que só deve continuar nesse ramo quem tem muita vocação e não depende de dinheiro de publicação para morar e comer. Quem quer ganhar dinheiro com Literatura não deveria fazê-la. A criatura pode escrever outros tipos de livros. Zíbia Gaspareto, é a pessoa que mais vende livro no Brasil.... mas ela sabe e é consciente de que não faz Literatura. O autor (a) não pode é encher a boca, dizer que é poeta e fazer porcaria. Vai fazer outra coisa, se não sabe escrever.... O mundo é grande e existem milhões de profissões.

Como estão as letras hoje no País? e as artes em geral?

As universidades estão bem....centenas e centenas de teses... eu mesma sou objeto de teses...Mas autores mesmo para mim são os mesmos. Não leio nada de novo. Aqui no Rio continuo lendo meus colegas....é o Chacal, o Mano Melo, o Edu Planchêz, a Leila Micolis. Entro nas livrarias todo dia e só vejo romances sobre guerras em Jerusalém, sobre Bin Laden, livreiros de Istambul, essas coisas. Não leio nada que preste. Continuo lendo os clássicos do mundo inteiro porque os compro em sebos e são garantia de que prestam. As artes plásticas no Brasil é dez e o teatro também.


Considerações finais:

Nessa vida eu só quero beijar o Ícaro, ter um toco de lápis e um caderno. Só.

http://www.rosakapila.zip.net/

Um comentário:

Ritelisa disse...

Rosa, sempre... rosa! ela é ótima. Aprendi muito com ela, tanto que hoje estou aqui em Buenos Aires estudando Jorge Luis Borges... e foi ela quem me fez gostar de Borges. Obrigada amiga. Você tem lugar garantido no meu coraçao. Mesmo há anos sem nos encontrarmos eu lembro de voce todos os dias. Legal Joca, essa entrevista com a Rosa. Beijos.