quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

NOS TEMPOS DA EMERGÊNCIA

Nos tempos da emergência
Da série: no meu jardim eu só avistava algarobas

Meu irmão mais velho chama-se Raimundo Gomes Lacerda, ele saiu de casa muito jovem, em busca do ouro prometido, saiu num caminhão com destino ao Estado de Goiás. Ele e muitos outros vizinhos, o caminhão (pau-de-arara) ficou pequeno pro tamanho daquele sonho, potes de lágrimas molharam o solo sertanejo, filhos que partiam sem cep definido, sem medo do desconhecido... maridos deixando saudade e a incerteza da volta.
Com meus 5 anos, curti o alvoroço daquele povo, curti a movimentação tão atípica daquele amanhecer.
Meu irmão sofreu muito durante todo período da viagem, 15 dias até chegar lá em Goiás, o ano: 1970. Estradas sem asfalto, alimentação escassa, febre... meu irmão era jovem e estava orgulhoso, iria trabalhar pra ajudar a família, pra conseguir comprar finalmente sua bicicleta Monark Vermelha (sonho de consumo daquela época.
Um novo sol aparecia no horizonte, uma chance de tornar-se um verdadeiro cidadão, pra sair da dependência daquele trabalho tão emergencial, mas isso não seria tão fácil...
Antes mesmo de sair do solo sertanejo, meu irmão pensou em desistir, sentiu um certo mal estar na alma, uma tremenda insegurança na pele, mas prosseguiu... nesses 15 dias de viaje, muita doença envolvendo todos, muita febre, falta de alimentação, morte.
- o medo habitou o pau-de-arara -
Nada do que foi combinado foi cumprido, meu irmão abandonou o projeto inicial e no ano de 1972 resolveu ir pra São Paulo.
Era o auge da carreira do Roberto Carlos... os cabeludos invadiam a moda nacional.
Foi nesse estilo, que meu irmão no ano de 1974 voltou pra Patos PB.
Calça boca de sino, costeleta caprichada, cabelos compridos, sotaque modificado, mania de tomar banho morno e presentes na mala...
O presente que mais marcou nossa memória e família, foi uma imagem da Nossa Senhora de Aparecida, uma imagem linda, ornamentada com luzes coloridas... energia elétrica já fazia parte da nossa realidade... ao chegar a noite, ligamos “a santa” na tomada, espetáculo total, às luzes chamavam a atenção de toda vizinhança, todo dia lá em casa passou ser dia de natal.
Vinham gente de todo o bairro, rua do meio, da palhoça, filho de fulano, esposa de sicrano...
Eu ficava esperando chegar o anoitecer pra que nossa casa pudesse receber tanta gente, tantos olhares, a santa realmente operava milagres.
Eu sempre amei muito futebol, sempre quis jogar bola, e aos 9 anos de idade, essa vontade era ainda mais presente, ensaiava meus treinos em qualquer lugar, os dedos dos meus pés sempre recebiam “cobertura nova”, tinha muita pedra no meu caminho.
Meu irmão do meio, Luis Ribeiro Gomes, sempre dava uma força pros meus sonhos se realizarem, até arriscava brincar comigo, a idade nos apontava caminhos bem opostos.
Um belo dia, chamei meu irmão pra jogar bola, o local escolhido: a sala de casa... era um espaço amplo, cimento lisinho, dois gols improvisados: nascia o estádio.
O jogo começou animado, conhecendo timidamente o adversário... chutes prá lá, divididas prá cá, êpa! foi falta: era a minha chance... um lindo golaço eu iria marcar... meu irmão aposto no gol... um chute fulminante! Errei o alvo... a bola foi direto na santa... cacos de vidros espalhados pela sala, minha alma apagada, a horrorização do ato, a santa exposta, olhar de desaprovação, receio e medo: adeus salvação.
Eu chorava... chorava... recolhia cacos da nossa preciosidade, nosso tesouro importado, minha carreira de boleiro estava arruinada, meu irmão fugiu...
Comecei a cair num profundo desespero, não sabia pra quem pedir socorro, a santa em pedaços, vizinhos já desconfiados, acabará o natal pra todos nós...
Depois de algum tempo meu irmão apareceu e eu perguntei: Onde você estava? Porque não veio me ajudar?
Ele simplesmente falou: fui avisar a mãe do que você fez... como assim? Você estava comigo, dividiu a brincadeira, como me acusar?
Mas foi você quem chutou a bola, errou o alvo...
Mas você nem se esforçou pra pegar a bola...
A mãe chegou do serviço e aplicou o castigou: suspendeu o que eu mais gostava de fazer: jogar bola... pro meu irmão sobrou o castigo de não mais pular da ponte do Rio Espinharas... meu irmão tinha cada gosto esquisito...
D. Terezinha sempre teve muita categoria, evitava bater em nós, tratava na palavra... mas naquele dia eu vi a chorando, quietinha, fazendo sua oração perto dos “cacos de Nossa Senhora de Aparecida”, pedindo perdão pela má pontaria dos filhos, pedindo perdão pelo vazio da sala, pedindo perdão pela ausência de uma santidade na nossa família.
Minha mãe naquele dia chorou lágrimas de santa, e ganhou o arrependimento angelical e inocente dos filhos...

Réginaldo “Poeta” Gomes 06/02/2008.

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