domingo, 2 de março de 2008

Uma mala, um sorriso e um perdão
Da série: no meu jardim eu só avistava algarobas

Passei uma tarde inteira chorando sob o olhar dengoso do tempo.

Minha irmã Gorete, me pegou e colocou-me dentro de uma mala, falou que iria me devolver ao remetente, que eu não era irmão dela, que eu não pertencia àquela família... minha inocente alma se partiu em pequenos anjos, cada um hospedou-se num canto da sala ameaçando minha irmã: daqui Dudé não sai não... eu não conseguia conter às lágrimas, minha irmã não conseguia conter o sorriso: é brincadeira!! É brincadeira!!!

- tarde demais -

Meu soluço acordou o bairro, desviou o rio, a força da minha dor fez o sino da igreja bater mais cedo, minha bola murchou, meu pão Négo (que eu tanto amava), perdeu o sabor... por mais que eu ouvisse dos lábios dela a melodia do “é brincadeira Dudé, é brincadeira”, minha consciência me bulinava, eu sangrava uma dor irreconhecível, eu amputava qualquer ameaça de sorriso; eu só esperava a noite chegar, carecia de ouvir minha mãe, a palavra dela era a sonoridade exigida pela minha alma.

- meus anjos permaneciam apostos -

Eu era caçula, irmão dos meus irmãos apenas por parte de mãe, essa história era contada à mim com toda sinceridade, mas eu já ficava muito receoso por esse fato, desconfiava de qualquer conversa paralela que envolvesse meu nome: tinha medo de desabitar-me.

O sol abóboramente adormeceu, eu continuava em profundo soluço, não há nada pior que soluçar uma tarde inteira, é uma situação estranha, flor sem cheiro nem cor, árvore com fruto sem valor, milho assado sem São João.

Havia um clima de reconciliação no ar, minha irmã guardou a mala, pediu mil perdões e jurou que nunca mais iria brincar daquele jeito, ela estava com medo que eu a entregasse pra minha mãe, a brincadeira dela foi cortante, não tinha jeito: o fato era que estava muito magoado e cada vez que pensava no assunto, um açude visitava meus olhos, eu tinha que conversar com minha mãe, se não, eu sabia que seria um ser apenas no imaginário, na certidão de nascimento.

- minha pouca idade já tinha contas pra acertar com o futuro -

Quando a gente fica nessa situação, não há palavras que consertem o dicionário, não há tempero capaz de salvar o feijão, eu tremia inteiro, medo de perder um lar, medo de perder meus irmãos.

- voltei a chorar -

Finalmente minha mãe, D. Terezinha, chegou do trabalho, e já sentiu que uma onda de desafeto estava no ar, meus olhos denunciavam o fato, a insegurança da minha irmã entregava o medo... conversamos, eu mais chorava que falava, as palavras misturavam-se com minhas lágrimas, saiam salgadas, salobra, barrenta.

D. Terezinha afirmou categórica que eu era irmão legítimo de TODOS, com exceção do pai, algo que já sabia, falou em segredo com minha irmã, adoçou meu soluço com seu olhar jabuticaba, minha insegura com um meigo SIM, curvou-se diante do tempo; abraçou-me feito um lençol limpo cobrindo um sonho bom.

Fiquei em paz, sem medo de caranguejeira, de bicho-papão, do Frei Damião, de abandono... meus outros irmãos chegaram e me deram o que eu mais precisava naquele instante: a estrela da aceitação, a afirmação de pertencer ao mesmo ciclo de DNA, de ter a rede pra dormir em paz, o famoso: eu vi você nascer.

A vida é cheia de perdas e ganhos, hoje sei que sem minha família eu seria apenas a passagem do nada, o reflexo da insegurança, um coador de café sem cheiro.

Essa cena aproximou-me muito mais do que até então eu nunca tinha pensado em perder: eu mesmo.


Réginaldo “Poeta” Gomes 28/02/2008.

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