segunda-feira, 4 de abril de 2016


O raio sobre o lápis
( Maria Gabriela Llansol)
V
a conclusão de que não há abismo, e que a infância não
pára de desenvolver-se e crescer,
é um novo princípio de realidade, de morte, de velhice:
eu não deixo de viver no mundo interior e exterior das
metamorfoses flutuantes; é já dia, mas a noite que con-
duz a esperança no pensamento, e sobre si própria, não
acabou.
Não acabou definitivamente;
onde estará, protegendo-se da luz, o sapo que brilha?
Eu tenho a intuição, Aramis, de que os monstros
são as tentativas mais puras do Universo.
«Olha-os, e não os mates.»



Existe acidente no dia a dia eu perdido em meus acasos no rumar sem destino
numa simples postagem de Diego El Khouri. Um poeta lá das bandas de Goias.
E descubro a poesia de Maria Gabriela Liansol neste poemas estonteante acima
de uma originariedade rara.
Nos que ousamos escrever erramos quase sempre. Este poema comoveu-me
e não poderia deixar que ficasse em branco.
Estou passando por alguns sites, blogs e montando uma pequena seleção
para nossos não leitores se é que temos leitores.
Nesta já quase tarde de segunda … que deixei de ouvir Caetano
para saborear a poesia que toca em nossa quase inexistente alma.
Nos náufragos neste planeta. Sem destino nenhum além do cotidiano
e a poesia nos abre o olhar para o inefável.
Agradeço a Diego que num acaso em breve farei uma apresentação
de sua obra no Entrementes.
Enquanto saboreemos a poesia de Maria Gabriela Liansol.



Poemas de Maria Gabriela Llansol e um documentário :
 
https://www.youtube.com/watch?v=eS65kEPaOqE







Se as sete notas das sete da manhã fossem uma
Figura, e os sons da rua sua serva, seria possível
Encontrar a relação que existe por acústica
Entre uma borboleta e uma borboleta protegendo
Em vão sua vida e cor. Não há nada de estranho
Nessa relação figural. Por exemplo, Pita
(E é a sua primeira vez) pôde sentir num tecido
Branco que chorava manso a efectiva resistência
Às lágrimas que a habita em fúria.






34



Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.






maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003


Maria Gabriela Llansol — Herbais, 16 de Agosto de 1981


Hoje, passada a madrugada, continuei o dia com a minha parte mais sombria; soltaram-se-me as minhas recordações, presentes, passadas e futuras, e não encontrava caminho linear entre elas.
Não só importa escrever sucessivamente, mas saber quem me sucederá numa constelação de sentidos.
O que é a descendência?
A seiva sobe e desce numa árvore, estende-se pelos ramos, e é regulada pelas estações; eu e a árvore dispomo-nos uma para a outra, num lugar por nomear. Este lugar não tem significação de dicionário, não transmigrou para nenhum livro.

Agora o sol, o solo, a solo, encadeiam-me nas palavras      Esta madrugada aproximei-me da certeza de que o texto era um ser.


Llansol, Maria Gabriela, um falcão no punho — diário I, Lisboa: Edições Rolim, 1985. p.48

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